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domingo, 6 de outubro de 2019

Iron Maiden + Richard Marx

Parte 1: aeroporto

Muitos fãs acreditam que o Ed Force One é um avião pertencente ao Iron Maiden. O Boeing 757-200 (G-OJIB), utilizado na turnê Somewhere Back in Time em 2008 e 2009, e o outro 757-200 (G-STRX), utilizado na The Final Frontier World Tour, eram da Astraeus Airlines, empresa aérea inglesa que tinha Bruce Dickinson como um de seus comandantes. Logo, a aeronave era apenas arrendada para uso da banda. Como a empresa interrompeu suas atividades em 21 de novembro de 2011, esse foi o principal motivo para a banda não utilizar o avião na Maiden England World Tour, que durou de agosto de 2012 a julho de 2014.

Para a The Book of Souls World Tour, que durou entre fevereiro de 2016 e julho de 2017, a banda conseguiu arrendar um avião maior, Boeing 747-400 (TF-AAK), da Air Atlanta. A turnê seguinte, a deste relato, chamou-se Legacy of the Beast World Tour e se inciou em maio de 2018. Embora a desculpa oficial fosse que os equipamentos da turnê não caberiam em apenas um 747, a verdade é que a banda teve dificuldades para arrendar uma aeronave. Em um mundo pré corona virus, os custos de arrendamento eram astronômicos até para uma mega banda como o Iron Maiden, então provavelmente não compensaria o investimento.

Deste modo, com meses de antecedência, eu já sabia que a banda chegaria ao país em um voo comercial e preparei-me para isso, estudando os possíveis voos de chegada e as possíveis conexões ao Rio de Janeiro, já que o primeiro show no Brasil seria lá. Não há voo direto da cidade do México para São Paulo, logo, a conexão em São Paulo é obrigatória.

Além disso, eu já tinha muitos amigos hunters mexicanos, e um deles confirmou o número do voo em que a banda embarcou para São Paulo. Apenas três fãs se aventuraram no aeroporto: eu, Carlos e Arianne. Quando chegamos, a área de desembarque no terminal 2 estava completamente vazia. Não havia ninguém esperando por parentes ou amigos, não havia seguranças, não havia nada. Estranho, mas mantivemos a espera.

Um a um, vimos quando os integrantes da equipe técnica da banda, que eu conheço tão bem, passaram pelo portão de desembarque e caminharam para o balcão de conexões. Os músicos, entretanto, não desembarcaram. Após esperar por algum tempo, concluímos que foram retirados por alguma saída especial, uma medida exagerada da segurança, já que não havia ninguém esperando por eles além de nós. Uma banda de seis músicos encontraria três fãs. Haveria, portanto, mais banda do que fãs.

Artistas com fãs problemáticos, com potencial para causar tumulto às operações normais do aeroporto sempre tem a alternativa de utilizar passagens especiais para embarcar, desembarcar ou fazer conexão. Esse, entretanto, é um procedimento que gera custo extra para a empresa responsável pelo artista, bem como é bastante burocrático: não basta querer utilizar passagens especiais, é necessário provar que é absolutamente necessário. Logo, não parecia possível ser o caso nesta ocasião.

Por alguns dias fiquei sem entender o que aconteceu. A informação do mexicano era certa. Por que, então, a banda não desembarcou? Dias depois, descobri a verdade: a equipe e Steve Harris seguiram para o Rio, enquanto os outros integrantes se hospedaram em São Paulo. Neste momento, é claro, eu não tinha ideia, então assumi que a banda seguiu para o Rio de Janeiro.

Parte 2: à procura do hotel

No dia seguinte ao show no Rock in Rio, era claro que a banda viria para São Paulo. Se aeroporto não foi opção na conexão, seria menos ainda no dia em que todos os fãs imaginavam que a banda chegaria. O jeito seria descobrir o hotel. Por meses eu e Carlos acreditamos que o Iron Maiden ficaria no Tangará, pois é um hotel isolado, de difícil acesso, ideal para uma banda que já está de saco cheio de interagir com os fãs. Quando, no mês anterior, Bon Jovi não ficou no Fasano, onde sempre ficou, mas também não ficou no Tangará, nossa tese foi por terra. A nova desconfiança era que a banda ficaria no Hyatt.

Aqui farei uma pausa para outra história relacionada: em 2018, um médico, que é meu amigo no Facebook, iniciou uma conversa no Messenger, dizendo que era muito fã, que gostaria de conhecer a banda e bla bla bla. Esse tipo de coisa acontece o tempo todo, mas o diferencial foi que ele ofereceu dois mil reais apenas para eu dizer em que hotel o Iron Maiden ficaria. Eu nunca fiz corres para ganhar dinheiro, e confesso que foi uma oferta tentadora, mas considerei absurdo lucrar com isso.

Como é alguém que eu sabia que não iria aprontar, causar ou atrapalhar, respondi que não precisava pagar, desde que aceitasse se hospedar e me registrasse como convidado. Eu adiantaria o lado dele, fornecendo a informação que ele queria, e ele adiantaria o meu, pois eu não precisaria gastar com hospedagem. Parecia um bom acordo para nós.

Comentei que achava que a banda ficaria no Tangará, e imediatamente ele fez a reserva, que não era reembolsável caso fosse cancelada. Eu disse "está maluco?! Isso é apenas uma suspeita, não significa que a banda realmente ficará lá". Ele respondeu "eu sei, mas confio em você, se você diz que ficará lá, então provavelmente fique". Esses caras realmente acreditam que eu faço mágica, fala sério!

Com o passar do tempo, a atitude dele foi ficando muito estranha. Primeiro, disse que a esposa decidiu acompanha-lo. Sem problemas, eu não precisaria dormir com eles no quarto. Se me registrassem como convidado, eu teria passe livre para não ser expulso do hotel. Conforme a data se aproximava, ele disse que levaria também um amigo que é muito fã.

Os hotéis permitem apenas um convidado por quarto, então começou a ficar claro que não seria eu. Achei que foi uma sacanagem sem tamanho, ainda mais porque recusei a grana para ajuda-lo. Por isso, quando tive certeza que não seria no Tangará, rolei no chão de dar risada: o cara gastou uma grana a troco de nada!

Retomando: ele e a esposa foram para o Tangará, já que não foi possível cancelar a reserva. Ele ficou à espera da informação correta, mas é claro que eu não estava mais interessado em ajudar. Nesse momento eu não sabia onde o Iron Maiden estava, mas quando soubesse não passaria a informação. Meu messenger parecia uma árvore de natal, de tanto piscar. Somente nesse dia, foram quase 400 mensagens dele implorando, mas eu nem ao menos as lia.

Fiquei em casa, navegando em busca de pistas, pois quase sempre há um fã linguarudo que vê alguma coisa e espalha na internet. Também dei uma trollada básica, postando no Facebook fotos antigas de quando estive no Tangará. Sei bem que, em dia de Iron Maiden, muitos ficam de olho em mim. Depois soube, através do médico, que houve quem acreditasse e realmente tenha ido para lá.

Kevin e Gillian dividiam um quarto no Hyatt, pois também acreditavam que era onde a banda ficaria. Como no caso do médico, foi dinheiro jogado fora. Ninguém sabia onde o Iron Maiden estava. Por outro lado, a "fama" que consegui fazendo corres finalmente rendeu frutos: além do médico, Kevin, Gillian e Alex me ofereceram hospedagem grátis em troca de ajuda no corre. Modéstia a parte, quando o assunto é Iron Maiden, sei que sou o que teve os melhores resultados nos últimos anos. É para isso, aliás, que faço todos os outros corres: é apenas treino para quando o Iron Maiden estiver aqui!

Hunters do Rio informaram que ao menos Steve Harris permaneceu na cidade, mas não sabiam dizer se toda a banda ainda estava lá. Será que o Iron Maiden fez base Rio?! Se isso se confirmasse, já era, fim de corre. Ou não... quando comentei esse fato com Alex, decidimos que iríamos com Arianne para o Rio de Janeiro.

Parte 3: primeiro e segundo dias, com Kevin

No domingo, Kevin e Gillian informaram que descobriram que a banda estava em um novo hotel que, embora eu soubesse da existência, ainda não havia conhecido. Poucos artistas ficaram lá até então, sempre em corres que não fiz. Decidi aceitar a proposta de Alex. Fui ao hotel com a Arianne, onde nos registramos, ele e eu como hóspedes, ela como convidada.

No final da tarde, vimos quando a banda saiu para o show, acompanhada por diversos seguranças. Aquele não era o momento de tentar a abordagem, então apenas observamos quando Adrian, Dave, Janick e Nicko passaram por nós. Sabendo que Harris ainda estava no Rio... onde estava Bruce? Eu não vi, mas Arianne e Alex disseram que ele correu em direção à outra saída.

Durante o show, o médico, cansado de ser ignorado por mim, passou a mandar mensagens para Arianne. Ela reclamou para mim, e isso me fez falar com ele. Como eu não estava nem um pouco a fim de ajudar, disse que se ele quisesse teria que pagar pela informação. Ele aceitou. Combinamos 200,00 pelo nome do hotel e mais 100,00 por cada foto que ele conseguisse. Dessa forma, pelo menos ele pararia de encher o saco! Logo após o show, ele apareceu no hotel, acompanhado pela esposa, mas não foi até o bar, onde eu e Arianne estávamos.

Dave, Janick, Adrian e Bruce decidiram permanecer no bar do hotel, especialmente porque muitos alunos do clube de tiro onde, dias antes, Bruce e Janick estiveram para praticar, foram convidados pelos músicos para visita-los no hotel. Em relação ao nosso grupo, que incluía Kevin, os seguranças estavam muito mais chatos que o habitual, não possibilitando nenhum tipo de contato, mas talvez rolasse uma oportunidade quando os convidados da banda se retirassem.

Eu, Alex e Arianne estávamos sentados em torno de uma mesa, apenas observando. Às vezes parece que Kevin nunca fez um corre na vida, pois aguardava de pé, sempre cercando. Ele simplesmente não sabe ficar quieto e esperar pelo melhor momento. Como não estava próximo a nós, o médico não despertou a atenção dos seguranças, então aproximou-se de Janick e conseguiu tirar uma foto com ele.

Adrian Smith levantou para ir ao banheiro, sempre acompanhado por um segurança. Kevin achou que seria uma boa ideia aborda-lo quando saísse, disse que faria a abordagem, mas aconselhei-o a não fazer. Era uma ideia ruim, mas era o Kevin, né? Ele é chato, não dá ouvidos a ninguém e tentaria de qualquer maneira. Quando Adrian saiu, tentou, mas levou um esporro quase aos berros do segurança. Eu, Arianne e Alex permanecemos quietos onde estávamos.

Foi então que percebi a presença de um fã aleatório, um verdadeiro imbecil alcoolizado, que decidiu causar. Ele posicionou-se no balcão do bar, como se fosse pedir alguma bebida ao atendente, mas passou a se mover lateralmente, em uma tentativa para aproximar-se de Bruce. É claro que foi impedido por um segurança. Ao invés de ficar na dele, começou a discutir, berrando, ameaçando até mesmo sair na porrada.

"Eu estou hospedado! Tira a mão de mim!". Falava como se o fato de ser hóspede lhe desse direito de abordar o vocalista. Por muito, mas muito pouco mesmo, o segurança, um novato que eu ainda não conhecia, não perdeu a paciência e enfiou a mão na cara dele. Quando a mulher que acompanhava o sem noção finalmente conseguiu retira-lo de cena, ao leva-lo para o quarto, me aproximei do segurança e iniciei uma conversa. Ele disse, entre outras coisas, que os seguranças estavam mais chatos que o normal devido à presença de Kevin, pois todos sabiam que ele vendia no eBay os autógrafos que conseguia.

De fato, Adrian subiu sem atender ninguém, os seguranças não permitiram. Bruce subiu em seguida, mas ele não atenderia de qualquer maneira, independentemente da presença dos seguranças. Janick também se retirou e mais uma vez os seguranças não permitiram que ele atendesse ninguém. Restou Dave, justo o que considero como o mais difícil.

Neste momento, chamei Kevin de canto e lhe disse "para mim está evidente que não estão deixando ninguém atender porque há um problema com algum fã que eles conhecem. Como os únicos conhecidos dos seguranças somos eu e você, vamos nos afastar para dar chance a quem ainda não tem fotos com a banda". Eu sabia que o problema não era comigo, mas ainda assim sugeri me afastar também, para possibilitar que Arianne e Alex tivessem suas chances.

Mais uma vez: era o Kevin! Você acha que ele iria escutar?! Que nada, permaneceu onde estava. Ao menos concordou que seria melhor se Arianne fizesse a abordagem pois, afinal, é uma mulher - e com mulheres geralmente é mais fácil. Quando Dave levantou e caminhou em direção ao grupo - eu me afastei, ainda que Kevin tenha permanecido. Arianne o chamou, pedindo para tirar uma foto com ele. Ele disse "sim", mas o segurança não deixou que ele atendesse. Dave insistiu, repetindo "Eu posso, eu posso", mas o segurança não permitiu novamente, praticamente arrastando-o para o elevador.

Chamei Kevin novamente de canto e lhe disse o que o segurança novato me contou, que não estavam deixando a banda atender porque ele pegava autógrafos pra vender. Pela terceira vez: era o Kevin! É claro que tomaria uma atitude sem noção! Durante a noite, escreveu e enviou um textão para o messenger de Sombra, o chefe dos seguranças. Eu e Arianne deixamos nossas coisas no quarto, mas retornamos para casa, pois tínhamos que cuidar de nossos gatos. Antes de sair, o médico me chamou de canto e entregou 300,00. Ao menos foi decente e cumpriu o combinado.

Na manhã seguinte, Kevin e Sombra se encontraram no restaurante, quando foram tomar o café da manhã. Sombra negou o que o outro segurança disse, afirmando que não permitiu porque Dave estava muito bêbado, e não seria legal ter fotos dele rolando por aí naquele estado de embriaguêz. Talvez fosse verdade em relação a Dave e Janick, mas e quanto a Adrian? Se ele não estava bêbado, por que então foi impedido de atender também? Além disso, Dave e Janick tiraram dezenas de fotos com os convidados, o pessoal do clube de tiro. Somente nossas fotos cairiam na internet, as deles não???

Eu e Arianne acordamos cedo, fizemos o que tínhamos que fazer e retornamos ao hotel. Quando chegamos, Alex estava no café da manhã, então, como o quarto estava vazio, ela disse que queria subir para se arrumar, passar batom, essas coisas de mulher. Eu a acompanhei. Quando descemos, o elevador onde estávamos parou no terceiro andar. A porta abriu, Janick entrou, a porta fechou.

Eu, Arianne e Janick dividíamos o mesmo elevador, e eu teria apenas 3 andares para convence-lo a tirar uma foto ao menos com ela. Ele nos cumprimentou e disse que estava curtindo uma ressaca infernal. Arianne respondeu algo que não prestei atenção, pois estava bolando o que faria para convence-lo a tirar a foto. Janick foi um dos mais integrantes mais legais no passado, mas não o vi em 2013 - e soube que estava chato, em 2016 ele não quis atender ninguém, e estava repetindo o mesmo padrão em 2019.

Quando a porta se abriu, eu disse "Jan, ela nunca tirou uma foto com você, você poderia tirar uma foto com ela?". Ele respondeu que sim, desde que fosse muito rápido. Mal o flash disparou e ele ja tentou sair correndo, mas eu disse "falta a minha", e ele acabou tirando. Eu sei, já tenho, mas Iron Maiden é minha banda predileta e minha última foto com ele foi em 2011. Se a cada novo álbum a banda espera que compremos - o que fazemos com o maior prazer - eu também espero conseguir uma nova foto com cada integrante todas as vezes que eles estejam em minha cidade. Iron Maiden é minha banda favorita, porra!


De manhã, nada mais aconteceu. Nossa diária venceu, mas apenas retiramos as coisas do quarto e permanecemos no hall. Imagine um hóspede que tenha um voo agendado para noite, por exemplo. A diária vence meio-dia. É absurdo obriga-lo a pagar outra diária apenas por causa disso, a menos que ele pretenda usufruir do quarto, certo? Então, os hotéis permitem que o ex hóspede permaneça nas dependências, desde que desocupe o quarto e faça o check-out.

Por outro lado, quando a diária de Kevin venceu, ele se despediu e foi embora, sem conseguir nenhuma foto ou autógrafo. Porém, antes que partisse, eu e Arianne flagramos quando ele passou uma mensagem de áudio para uma amiga, informando o hotel. Ele nos mostrou a foto dela, e pediu para que nós a ajudássemos a conseguir as fotos.

Parte 4: segundo e terceiro dias, sem Kevin

"Incrivelmente", bastou Kevin sair, que as coisas começaram a acontecer. O primeiro a sair para um passeio, sem a companhia de seguranças, foi Bruce Dickinson, acompanhado por sua nova namorada, Leana Dolci. Eu jurei para mim mesmo que nunca mais o abordaria, já entendi que ele não quer contato nenhum com os fãs, então apenas acompanhei a tentativa de Alex, à distância.

Quando Bruce passou por ele, ele disse "Bruce, por favor, posso falar com você um minuto?". Sem parar de caminhar, a resposta foi bizarra: "eeeeeeeeeeeee". Mala chato do inferno, no palco somos todos blood brothers, uma grande família, mas pessoalmente é "eeeeeeeeeeeee". Não pode perder 5 minutos da vida dele pra atender quem admira seu trabalho, vai aos shows e compra os álbuns.

Carlos e Jessica enfim foram ao hotel, foram ao show no dia anterior e decidiram começar o corre apenas na segunda-feira. Somos um trio, se eu sei de algo eles sabem, se eles sabem eu sei. No entanto, mesmo eu dizendo que estava sossegado ficar dentro do hotel, preferiram esperar do lado de fora. No entanto, para eles, nada aconteceu, voltaram de mãos vazias.

Logo depois, chegou Leo. Fiquei curioso para saber como descobriu o hotel, então ele contou que estava no Hyatt com Karina, Kevin e Gillian na noite anterior, e que, como tem carro, saiu procurando em todos os hotéis da região. Ele dirigia e Kevin entrava nos hotéis para verificar. Enquanto ele contava, a tal amiga de Kevin chegou ao hotel, acompanhada por um batalhão de fãs, eram 15 ou 20 pessoas. Por isso, eu e Arianne nem quisemos saber de ajuda-la, ela que se virasse.

Eu, Leo, Arianne e Alex ficamos no bar, próximo aos elevadores. O "batalhão" se espalhou pelos sofás do hall. Estranhamente, os funcionários do hotel fingiam que tudo estava normal, era como se não houvesse ninguém ali. Quando Nicko McBrain desceu, já estávamos "na cara do gol", então fizemos uma abordagem educada e ele aceitou nos atender. Tirei as fotos de Alex, Arianne e Leo, mas quando seria a minha vez, o "batalhão" chegou correndo, cercando, cutucando e muvucando. Nicko se emputeceu e parou de atender. Mas que bando de imbecis! Fiquei sem minha foto, mas estava feliz que Arianne conseguiu a dela.

O próximo a descer foi Adrian Smith. Leo o abordou e, como Nicko, ele aceitou nos atender. Bati a foto de Leo, que ficou toda tremida, tirei mais duas e o resultado foi o mesmo. Só então compreendi que o modo de operação da câmera, controlado por um disco (representado pelo número 4 na imagem ao lado), estava configurado incorretamente, de "automático" para "scene". Isso infelizmente pode acontecer sem querer, ao passar a câmera para outra pessoa, por exemplo. Provavelmente aconteceu quando passei a câmera para um dos três tirar a minha foto com o Nicko, ou quando a câmera foi devolvida para mim. Problema corrigido, tirei as fotos de Alex, Arianne e Leo, e consegui a minha. É claro que o "batalhão" agiu da mesma maneira, mas Adrian teve mais paciência que Nicko e atendeu a todos.

Com a câmera configurada incorretamente, Leo quase ficou sem foto. Se eu não entendesse o que estava errado, nós também

O único comentário adicional é que, na vez da Arianne, ela entregou o The Book of Souls para Adrian autografar. Ele olhou para o segurança, o mesmo com quem conversei na noite anterior, e perguntou "esse eu posso?". Com a afirmativa, assinou e devolveu. Curiosamente, após essa turnê, Adrian reclamou, em uma entrevista, de caçadores profissionais de autógrafos na América do Sul, que conseguem autógrafos para vender.

Nesse dia, nada mais aconteceu, exceto a chegada de Janick, que mais cedo provavelmente usou outra saída, sem que percebêssemos. Determinado a não atender ninguém, entrou quase correndo, como um touro brabo. Determinado a conseguir a foto, Leo correu ao lado dele e conseguiu convence-lo a parar para uma única foto. Mal tirou e ja correu para os elevadores.

Não, eu não pediria outra, mas fiquei chateado por Alex, ele merecia ter conseguido também. Por outro lado, que lábia! O papo de Leo sempre funciona! Funcionou com Malmsteen, com o Manowar, e até mesmo com Bruce Dickinson em 2011. Ele foi um grande companheiro de corres, lamento que hoje em dia quase não apareça mais.

No dia seguinte, a estratégia que usamos para entrar no hotel era, logo ao entrar, ir direto ao bar, onde pedimos café. Alex salientou que, se não nos deixassem entrar, ou se fôssemos expulsos, ele pagaria outra diária, o que felizmente não foi preciso. Havia poucos fãs, todos de boa, e foi tranquilo durante quase todo o dia. Como já conseguimos os "possíveis" - Bruce é impossível e perdemos a oportunidade de ouro com Dave, que certamente não se repetiria - decidi dar uma força para amigos. Muitos me pedem para ajuda-los com o Iron Maiden, mas não da pra ajudar todo mundo.

De qualquer forma, em todos os corres do Iron Maiden acabo ajudando alguém, por isso, desta vez passei o hotel para Leandro Caíque - apesar de ser um dos fundadores dos "hunters do bem", fizemos alguns corres juntos nos últimos tempos, estávamos de boa - e para Yanca, uma menina que não é hunter, mas tem o Iron Maiden como sua banda predileta. Ambos foram, não levaram ou avisaram ninguém - exceto uma "ex namorada" de Leandro Caíque - comportaram-se exemplarmente e conseguiram fotos com alguns dos "possíveis".

De manhã nada aconteceu. De tarde, vimos quando Richard Marx, que se apresentaria naquela noite no Tom Brasil, entrou no hotel, acompanhado provavelmente por sua esposa, mas como demoramos para reconhece-lo não houve tempo para aborda-lo antes que entrassem no elevador. Bônus! Se ele saísse, com certeza o abordaríamos.

Carlos e Jessica passaram mais um dia inteiro fora do hotel, mas só conseguiram Richard Marx.

Parte 5: Nicko soube da morte de Ricardo Pacheco

Nicko McBrain desceu sorridente, disposto a atender, principalmente porque percebeu que todos estavam de boa. Ninguém nem ao menos se levantou quando ele saiu do elevador, no máximo, acenamos e o cumprimentamos a distância. Isso deixava claro que não haveria nenhum imbecil que tentaria cerca-lo como no dia anterior. Entre nós, antes mesmo que ele aparecesse, já combinamos de tirar todas as fotos em uma única câmera, a minha. Organizamos uma fila e foi tudo muito rápido, foto atrás de foto.

Propositalmente fui o último, não apenas porque tirei as fotos de todos, mas porque queria dar uma notícia não muito boa para Nicko. Quando entreguei a câmera para o Leo e me aproximei, Nicko me estendeu a mão. Retribuí, mas antes mesmo de posar para a foto, perguntei se ele ficou sabendo do falecimento de Ricardo Pacheco, ocorrido 13 meses antes. Surpreso, ele mostrou-se totalmente interessado no que eu tentava dizer, mas a princípio não entendeu de quem eu estava falando. Pra piorar, meu inglês não é fluente, e eu não estava entendendo muito bem suas respostas. Felizmente, Leo fala muito melhor que eu e nos ajudou a conversar.

Fátima, Nicko e Ricardo no Rio, em 2011 - logo após o show adiado pela quebra da grade que separa o público do palco

Ricardo Pacheco não foi um fã comum. Nós, fãs, conhecemos o Iron Maiden, mas o Iron Maiden não nos conhece. Muitos acham que sou amigo dos caras, mas realmente não sou. Em 2011, pensei ter me tornado ao menos conhecido do Nicko, de tantas vezes que nos encontramos e conversamos. Em 2013, quando ele retornou ao país, já não se lembrava de mim. É super compreensível, esses caras conhecem pessoas o tempo todo, é complicado lembrar.

Por outro lado, o Iron Maiden conhecia Ricardo Pacheco. Todos os integrantes sabem quem ele foi: o brasileiro que, sempre acompanhado pela esposa Fátima, assistiu a 128 shows em dezenas de países, e estava quase sempre hospedado no mesmo hotel que a banda. Não importava se o show era no Rio de Janeiro, em Milão, em Jacarta e até mesmo na Transilvânia: eles invariavelmente o encontravam. Certa vez Adrian Smith perguntou "velho, o que você faz da vida?", e ele, com um enorme sorriso, respondeu: "eu sigo vocês!", finalizando com uma belíssima gargalhada, sua marca registrada.

Quando Nicko compreendeu sobre quem eu estava falando, ficou realmente chateado. Ele pediu para eu enviar suas condolências para Fátima, mas sugeri que ele gravasse um video, que eu me encarregaria de fazer chegar até ela. Tirei a foto com ele e fizemos a gravação. Foi um dos momentos mais emocionantes que tive como fã de Iron Maiden, que orgulho de ser fã desses caras - apesar do Bruce. Nicko é um ser humano incrível!

Minha cara não ajuda, mas eu havia acabado de informar Nicko sobre o falecimento de nosso amigo


Se você não entende inglês, ele disse, em tradução livre: "Eu recebi a notícia da perda do velho, meu coração está partido e eu gostaria de te enviar as minhas profundas condolências e te desejar o melhor. Nós sempre lembraremos dos velhos tempos e celebraremos a vida. Fique em paz!"

Sem que eu percebesse, outros presentes gravaram seus próprios vídeos, que demonstram como tudo aconteceu. E sim, eu sei que meu inglês é péssimo, mas ainda assim foi o suficiente para que eu me virasse quando fui sozinho ao Reino Unido para conhecer Paul Day.


Parte 6: conclusão

Nada mais aconteceu, exceto a saída de Richard Marx para o show. Ele foi direto do elevador para uma saída lateral, então o seguimos e fizemos a abordagem fora do hotel. Foi inacreditavelmente  educado, diferenciado mesmo.

Richard Marx

Logo depois, fui ao sozinho ao shopping, que fica encostado ao hotel, para comer. Se algo acontecesse, eu seria avisado e retornaria o mais rápido que pudesse, nem que deixasse o lanche pra trás, dane-se. Se Dave ou Bruce atendessem, eu poderia comprar outro depois.

Porém, Leandro Caíque teve uma recaída digna de seus tempos de "hunter do bem" e pediu-me para trazer um lanche do McDonalds. Me deu o dinheiro, eu comprei e entreguei, mas é claro que, assim que começou a comer, um dos seguranças do hotel o abordou e disse que não era permitido comer qualquer coisa que não fosse feita no restaurante do hotel. Tem gente que faz questão de passar vergonha sempre. Depois os funcionários do hotel começam a ficar chatos com fãs, como já vi acontecer dezenas de vezes, e ninguém sabe o porquê.

A essa altura, a informação já havia se espalhado. Anebelle e alguns hunters do bem começaram a entrar no hotel. Era hora de finalizar. Os músicos ainda ficariam mais um dia, mas eu sabia que Bruce e Dave não atenderiam ninguém. Corre de Iron Maiden é sempre muito cansativo, são muitos dias acordando cedo e dormindo tarde. Para mim estava bom, eu só retornaria se Arianne pedisse, mas ela não pediu. Pelo contrário, estava brava porque percebeu que passei o hotel para Yanca e Leandro Caíque. Fim de corre para nós. Com efeito, Carlos e Jessica retornaram no dia seguinte. Na saída da banda, conseguiram fotos com Janick, Adrian e Nicko. Dave e Bruce passaram sem atender ninguém. Não perdemos nada.

Quanto a Harris... ele veio com o filho, George Harris, que toca no Raven Age, então decidiu ficar com ele curtindo o Rio de Janeiro. Passou por São Paulo apenas para tocar e já retornou ao Rio. Ele fez base, mas o Iron Maiden, felizmente, não.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Iron Maiden

Desta vez sem o Ed Force One, o Iron Maiden veio "fatiado" para São Paulo. Bruce, Steve e Nicko chegaram primeiro, os guitarristas viriam depois. Leo estava determinado a fechar a banda pois, apesar de fazer corres há muito mais tempo que eu, ainda não tinha conseguido encontrar Adrian Smith. E a missão parecia um pouco mais difícil, pois os músicos foram hospedados no Renaissance, um dos piores hotéis de São Paulo no trato com fãs. Leo chegou ao cúmulo de passar sabão no olho para simular conjuntivite, e desta maneira conseguir atestado para fazer o corre sem se preocupar com suas obrigações trabalhistas. Ficou com o olho zuado e ardendo, mas valeu a pena... acho.

Assim que soubemos que metade dos integrantes já estavam em São Paulo, eu o encontrei e seguimos ao hotel. Entramos sem ser incomodados pelos seguranças, nos instalamos em uma mesa próxima ao bar e apenas observamos o movimento. Bruce estava por perto, permanecendo quase o tempo todo sentado em sofás próximos ao bar. Sabendo o quanto o baixinho é chato em relação a abordagens, o deixamos em paz. Nossos alvos prioritários eram Nicko e Steve.

Não vimos sinal de Steve, mas Nicko não demorou a aparecer. Leo o abordou e ele pareceu um pouco incomodado, mas assinou e tirou uma foto. Eu tinha um catálogo do Rock'n'Roll Ribs, o bar que ele tem em Fort Lauderdale, Florida, e queria um autógrafo, mas nem tive chance de pedir. Mal bati a foto do Leo e Nicko ja caminhou apressado para longe, parecia mau humorado. Esta foi a única vez em diversas que o vi que levei naba dele. Nessa noite, nada mais aconteceu.

Nosso plano era ir ao aeroporto na manhã seguinte, para acompanhar o desembarque do voo que chegaria do México. Com certeza os guitarristas estariam nele, o que seria perfeito, pois eu queria mais uma foto com Dave Murray (até hoje tenho apenas uma com ele) e Leo queria abordar Adrian Smith. Entretanto, ainda no hotel, três amigos me enviaram, quase ao mesmo tempo, a mesma foto. Um infeliz postou esta imagem no grupo "Iron Maiden Brasil", o maior de fãs brasileiros no FB.

Eu e Leo cancelamos os planos de ir ao aeroporto. Como conheço Sombra, chefe dos seguranças brasileiros do Iron Maiden, falei com ele e mostrei a imagem. Só imagina o que aconteceria se por algum motivo o pouso adiantasse ou os seguranças atrasassem para chegar ao aeroporto - já vi acontecer com outras bandas - o voo chegaria e o desembarque aconteceria normalmente, com centenas de fãs cantando e berrando. Quem teria que aguentar o mau humor dos músicos no hotel era eu.

Fortaleza 2013, mas em SP poderia ser igual
Até então Sombra estava de boa, descontraído - afinal, apenas eu e Leo estávamos no hotel - mas ficou bastante preocupado e imediatamente acionou Peter Lokrantz, o massagista e segurança do Iron Maiden, que também não ficou feliz ao ver a imagem. Eles convocaram uma reunião com todos os seguranças que iriam buscar os músicos.

Tempos depois, Sombra me disse que não havia fãs e que Adrian, Dave e Janick desembarcaram normalmente como qualquer passageiro, sem nem mesmo utilizar alguma saída especial reservada para esse tipo de situação. Como em um desenho animado, senti a orelhinha de burro crescendo. O voo chegava extremamente cedo em um dia em que a maioria teria que trabalhar. Apesar de ter a informação, os fãs não tiveram coragem de ir ao aeroporto.

Retornei ao hotel com Leo e Sheila no dia seguinte. Desta vez a grana estava curta e não foi possível nos hospedar, como fizemos nas turnês de 2008, 2009 e 2011. Levei o livro "On Board Flight 666" e a intenção era conseguir autógrafos não somente dos músicos, mas também de toda a equipe. Há duas páginas com diversas fotos de integrantes do crew, e eles também fazem parte do Iron Maiden. Não são apenas os seis em cima do palco, todos são de alguma maneira importantes. Por exemplo, Michael Kenney, roadie do Steve Harris que também atua como tecladista, geralmente atrás do palco. Porém, era a "Maiden England World Tour", então tocou à vista de todos em "Seventh Son of a Seventh Son", embora mascarado.

Kenney é um pouco estranho. Em 2009 em Manaus não se incomodou em tirar uma foto comigo. Em 2011, no Rio de Janeiro também não, foto e autógrafo rolaram numa boa. Ainda em 2011, em Belém reclamou para mim e para Bruno "The Crying Man" que estava chateado porque, apesar de ser um dos integrantes mais antigos do Iron Maiden, inclusive tocando com a banda em todos os shows, ninguém sabe quem ele é, ninguém pede fotos e autógrafos, ninguém o assedia. Dois anos se passaram e agora estávamos fumando no fumódromo do hotel, cada um em seu canto. Apenas observei quando alguns fãs que aguardavam na calçada em frente ao hotel se aproximaram e pediram uma foto. Foram solenemente rechaçados: "Eu não sou famoso, eu não sou ninguém! Vá procurar o Bruce Dickinson".

Kenney não é o único relevante. Ashley Groon, por exemplo, tem uma função chamada "set carpinter", é basicamente um faz-tudo, que cuida de cada detalhe do palco. É, por exemplo um dos responsáveis pela troca dos cenários, aqueles panos de fundo, que são diferentes a cada música. Se o Iron Maiden faz um puta show, não apenas musicalmente mas também visualmente, ele com certeza colabora para isso. Cada integrante da equipe tem sua importância. Por isso, eu estava focado em conseguir os autógrafos.

Dentro do hotel, um dos primeiros que abordei foi o tour manager Ian Day, que recusou-se a tirar foto comigo em 2011. Como era somente autógrafo, desta vez não se importou. O mesmo se aplicou à Michael Kenney. Ele estava de mau humor e distribuindo coices nos fãs, mas não se incomodou em rabiscar meu livro. Eu e Sheila observamos que Ashley Groon estava reunido com outros integrantes da equipe no bar do hotel, sentados ao balcão.

Como excursionamos extra-oficialmente com o Iron Maiden em 2009 e 2011, hospedados nos mesmos hotéis, nos tornamos próximos o bastante para que ele soubesse quem somos e aceitasse nossa presença numa boa, pois sabe que não somos o tipo de fã que causa problemas. Nos aproximamos, os cumprimentamos, e pedi pela assinatura de cada um que estivesse nas imagens do livro. Antes de faze-lo, o sempre animado Ashley disse algo como "é a edição brasileira do livro? Nossa, é diferente! Posso ver?". Mas é claro que sim!

Mal deixei o livro com ele quando fui abordado por um inconveniente segurança do hotel, que solicitou que eu e Sheila nos retirássemos. Perguntei por que, recebendo a resposta que "estávamos abordando banda". Fala sério! Ashley nos conhece e não estava nem um pouco incomodado com nossa presença, pelo contrário, estava se divertindo enquanto folheava o livro. Mas o segurança não aceitou nossos argumentos e fez com que nos retirássemos ainda assim.

É por essa e por outras que quando me hospedo neste hotel, faço questão de tratar a equipe de segurança como lixo, porque é o que é. Seguranças folgados e nada educados, não aliviam nem mesmo quando estou hospedado ou quando estou consumindo no bar do hotel. Sem contar o fato de serem incompetentes, pois quando tiveram de lidar com uma ameaça verdadeira à boa fama do hotel, estavam desatentos e deixaram o crime acontecer, durante a estadia do Crashdïet, em 2016.

Leo não foi expulso conosco porque não estava abordando ninguém. Ele não queria, como nós, ver os integrantes do crew. Arrumou um lugar no lobby e ficou lá quieto, o dia todo, na esperança de que Adrian Smith pudesse aparecer. Mas nem sinal dele neste dia. Nem no próximo.

Retornando a nós, do lado de fora, a missão tornou-se bem mais difícil. Com uma xicará de café na mão, Charlie Charlesworth saiu para fumar, e não se importou em falar conosco. Na sequência, vimos Ian "Squid" Walsh, que também não se incomodou em assinar e tirar uma foto. Abordei também a figurinista Natasha de Sampayo, que não quis saber de papo pois já estava trabalhando, entrou na van apressada e partiu rumo à Arena Anhembi. Mas a cereja do bolo ainda estava por vir: o todo poderoso empresário Rod Smallwood saiu para fumar. Tivemos uma longa conversa, uma das melhores que já tive envolvendo alguém relacionado ao Iron Maiden.

Como o vimos em diversas ocasiões anteriores, perguntamos se lembrava de nós. Sua resposta foi negativa, justificando que sempre vê muita gente em muitas cidades, então é difícil lembrar de todos. Quando dissemos que estávamos em Manaus em 2009, pareceu começar a lembrar. Ele comentou o setlist, música por música. Eu já sabia, mas ele estava tão animado que jamais o interromperia. Foi muito amigável. No fim, rolou uma foto incrível conosco.

No fim da tarde, quase anoitecendo, avistei Tony Newton, produtor e engenheiro de gravação, além de baixista do Voodoo Six (hoje em dia também baixista do KK's Priest). Tirei uma foto com ele, mas mesmo com flash a imagem ficou estranha, parte clara, parte escura... Felizmente consegui tirar outra foto com ele em 2018 no Rio de Janeiro, quando veio na turnê do British Lion.

Charlie Charlesworth é técnico de bateria no Iron Maiden
Ian "Squid" Walsh trabalha como técnico de som com o Iron Maiden
O todo poderoso empresário da banda, Rod Smallwood, nos proporcionou um grande momento
Tony Newton, baixista do Voodoo Six e do KK's Priest sempre trabalha com o Iron Maiden como engenheiro de gravação
Ficou bem incompleto perto do que pensei que conseguiria

Eu e Sheila decidimos finalizar. Passamos o dia inteiro de pé em frente ao hotel e percebemos que não conseguiríamos grandes coisas do lado de fora. Não retornei no dois dias em que a banda ainda estava na cidade. Também poderia tentar o corre de outro artista que estava na cidade, Bruce Springsteen, mas sabendo quem estava no corre - os mesmos com quem arrumei a treta gigantesca no ano anterior, incluindo Jonas e a cuidadora de idosos - não animei. Eu não estava com saco para ver gente merda, então me dei folga. Foi um erro, pois Bruce Springsteen é extremamente amigável, ou seja, teria conseguido sem dificuldades. Ele nunca retornou ao Brasil.

Neste dia, Ellen hospedou-se com Aline e Mariana no Renaissance. Elas passaram todo o tempo - tarde, noite, madrugada e manhã do dia seguinte,  uma saga de mais de 24 horas - sentadas próximo à entrada do lounge executive, que era frequentado pelos integrantes do Iron Maiden para tomar café da manhã, beliscar algo à tarde, etc. O sacrifício valeu a pena, pois conseguiram conhecer todos os integrantes. Até então, eu e Sheila fomos os últimos a conseguir ver todos, em 2009, mas precisamos de três cidades para isso, Ellen fez em apenas dois dias (as outras duas não são de corre, então toda a estratégia e plenejamento foi dela).

O que Ellen fez foi simplesmente notável, até porque ela e Aline foram as últimas a conseguir fechar a banda de uma única vez - Mariana não, pois estava tomando banho quando Steve Harris apareceu. Provavelmente ninguém mais conseguirá faze-lo no Brasil, pois a cada vinda o Iron Maiden se torna mais difícil. Imagine então depois do COVID...

Tenho orgulho enorme de saber que fui o "professor" dela, pois não somente aprendeu, como me superou, chegando até mesmo a criar novas técnicas de corre, possibilidades que eu nunca havia pensado. Nesta época, porém, não estávamos nos falando devido à sua aproximação com Jonas, cuidadora de idosos etc. Felizmente voltamos a nos falar - e fazer corres juntos - em 2014.

Relembrando este dia, Ellen conta: "eu e as meninas chegamos ao hotel bem cedo, na véspera do show. Fomos em todas as áreas comuns mas nem sinal dos caras do Iron Maiden. Decidimos então nos concentrar mais no lounge executive. Tão logo chegamos, encontramos Nicko tomando chá. Ele nos atendeu numa boa. No decorrer do dia, ele retornou ao lounge diversas vezes e sempre nos via por lá, então passou a brincar conosco. De noite Steve apareceu para jantar - foi a única aparição dele. Parecia meio cansado, foi bem seco, mas tirou fotos sem nenhuma objeção.

Um pouco mais tarde, Bruce também apareceu para jantar. Não o abordamos, esperamos que terminasse a refeição. Era apenas nós três, mas mesmo assim os seguranças da banda encrencaram conosco. Peter Lokrantz foi um grosso, disse que não era para abordar o Bruce. Nem discuti, não adianta... Esperei o Bruce levantar, percebi que estava meio bêbado. Pedi por favor, juntando as mãos meio que implorando, e ele tirou fotos de boa com nós 3, apesar da cara de bosta dos seguranças. Depois percebemos que tinha um casal disfarçado que também conseguiu. O último que conseguimos nesse primeiro dia foi Janick, que estava mala e tirou as fotos de má vontade.

Encontramos Dave logo cedo, indo pegar algo para comer... foi bem simpático e nos atendeu. Depois do almoço, outros conhecidos se hospedaram também, incluindo Felipe Godoy e Rita, Kevin, Deca... Isso nos preocupou um pouco, pois ainda faltava Adrian Smith, que nem tinha aparecido até então. Já perto da hora de ir ao show, ele enfim foi ao lounge para comer. Segurança do hotel veio encher o saco, mesmo estando todos hospedados. Adrian terminou de comer e atendeu a todos de boa, bem simpático.

No dia seguinte, vi que poderia levar o Leo ao lounge, desde que o registrasse como convidado na recepção. Faltava o Adrian pra ele, e foi justamente quem apareceu por lá. Como na noite anterior, atendeu a todos de boa. Leo ficou bem feliz. Por outro lado, tomou naba do Janick. Bruce também apareceu, mas não tirou fotos com ninguém, o lounge estava bem cheio de fãs naquela manhã".

domingo, 27 de março de 2011

Iron Maiden - Rio de Janeiro

Quando desembarquei no Rio, dois amigos estavam à minha espera. Mais um táxi, rumo ao Intercontinental, hotel onde o Iron Maiden estava hospedado - e eu também. 

Por estar no mesmo hotel que a banda, tenho uma filosofia: só saio para o show após a banda sair. É sempre uma chance de vê-la novamente, e de acompanhar como isso acontece. O Maiden não costuma sair pela garagem ou por saídas especiais, especialmente quando sai para o show, pois a maioria dos fãs já está aguardando no local do evento. Até acontece, mas geralmente é pela porta da frente mesmo.

Também não faço questão de chegar cedo para disputar os melhores lugares na pista VIP. Com quase 20 anos, em 1992, fui um dia antes para a fila do show no Palestra Itália, em São Paulo. Foram 23 horas de espera, sem dormir, que me garantiram apenas um lugar intermediário. Explico: embora a fila estivesse pequena e organizada quando cheguei, na abertura dos portões estava uma confusão generalizada. A minha namorada na época escorregou e foi ao chão na abertura dos portões, levou alguns pisões, e deste modo perdemos os lugares mais próximos ao palco, apesar de todo esforço adicional para garantir a proximidade.

Quatro anos mais tarde, no Pacaembu, eu estava bem próximo ao palco. Não é fácil. Aliás, não é muito agradável assistir a um show assim. Grade é para os fortes, pois o empurra-empurra come solto, as encoxadas são inevitáveis, e ondas que não se sabe como ou de onde surgem te empurram de um lado para outro, sendo absolutamente impossível ficar de pé em muitos momentos. Você é simplesmente arrastado para cá e para lá, sem ter controle nenhum da situação. Então com quase 40 anos, deixava isso para a molecada.

Meu ingresso era para cadeira nível 3 e, para mim, estava ótimo - até porque pago inteira, e haja grana para pista VIP para 6 shows. Naquele dia, foi o que aconteceu: a banda saiu, eu saí. Tomei um táxi e, após quase meia hora, cheguei ao tal HSBC Arena. Mas algo parecia muito errado. Apesar do local não ser tão grande, a fila estava gigantesca. Em um primeiro momento lembrava a do show de São Paulo de 2009, no autódromo de Interlagos, que dizem ter atingido 4 quilômetros de extensão. Evidentemente o espaço não comportava 1/5 de gente que o autódromo, mas é fato que estava tão difícil de ver o fim da fila quanto. O pior: estava parada. Mais de 40 minutos se passaram e ninguém andou um centímetro sequer.

Atravessei a avenida e entrei numa churrascaria, pois ainda não havia comido nada desde que cheguei ao Rio. Os garçons me alertaram que, pelo horário, eu perderia o show, mas estava acompanhando a fila, que continuava parada. Comi sossegado e resolvi encarar o fim da fila. Ouvi relatos de que aconteceram alguns roubos de celulares. Indivíduos disfarçados de fãs, vestidos com camiseta do Iron Maiden para não chamar atenção, se aproximavam das vítimas, as abraçavam como se as conhecessem, e encostavam a arma, levando o celular.

Sem aviso, a fila começou a andar. Não naqueles passos de tartaruga que todos que vamos em show já estamos acostumados. Como o atraso era considerável, liberaram a entrada: nada de revista, nada de apresentar carteirinha de estudante (quando aplicável), nada de nada. Simplesmente abriram e deixaram a galera entrar. Então, em 5 minutos, a fila gigantesca desapareceu. Se o maluco que entrou atirando em crianças em uma escola carioca dez dias depois estivesse lá, poderia ter atirado tranquilamente em quem quisesse.

Chegar de última hora e ser um dos últimos da fila certamente tem seus inconvenientes: os lugares com melhor visão do espetáculo já estavam abarrotados. Reparei que as laterais estavam vazias, e resolvi me posicionar ali, à direita do palco. Se fosse meu primeiro show do Iron Maiden, talvez eu estivesse decepcionado, mas como era o décimo primeiro, eu estava animado por poder assistir ao meu primeiro show da banda em local fechado e, em um ângulo onde teria visão completa de tudo que acontecia no backstage. Finalmente eu veria com meus próprios olhos como fazem para operar o walking Eddie, por exemplo.

O show começou com "Doctor Doctor", como já era padrão, e a galera ainda estava morna, mas quando os telões acenderam e Sattelite 15 começou, a loucura veio abaixo. Em Final Frontier, quando a banda entrou no palco, logo nos primeiros acordes já se percebia que a grade, supostamente de segurança, que separa a área VIP do palco, viria abaixo. E veio. Enquanto a segurança tentava controlar a situação, a banda continuou a tocar, sem Bruce e indefinidamente. Isso foi legal, pois provou o que todos já sabiam: o Iron Maiden não usa playback. Se usasse, a música continuaria normalmente mesmo em uma situação que estava fugindo do controle. 

Naquele momento eu já sabia: o show seria cancelado. Bruce ficou realmente preocupado. Geralmente, ao perceber que alguns fãs estão espremidos na grade, ele pede a todos para recuar um passo, o que costuma resolver. Desta vez ele pedia que todos recuassem não um, mas dez passos. Ele tentava controlar a situação, enquanto os demais músicos faziam o melhor que podiam para estender a música até onde nem eles mesmos sabiam. Fizeram o que puderam, até que decidiram finalizar. E não, desta vez não houve a sequência com "El Dorado".

A banda saiu do palco e, após algum tempo, Bruce retornou, acompanhado de Fabiana, a tour manager brasileira. Utilizando-a como intérprete, anunciou que o show seria paralisado por 10 minutos, até que a barreira fosse consertada. Os seguranças faziam o melhor que podiam, mas a galera não colaborava: ninguém deu um passo sequer para trás, enquanto alguns fãs tentavam invadir o palco.

Rod Smallwood entrou em cena para tentar acalmar os ânimos, mas não havia como continuar. Quando o prazo se esgotou, Bruce retornou com Fabiana, que anunciou que o cancelamento, agendando um novo show para o dia seguinte. Tenso, mas não havia alternativas. Muitas pessoas não teriam como retornar. Pior, gastaram dinheiro com deslocamento (de outras cidades, estados, às vezes até países), hospedagem, alimentação, ingresso, e perderam ali a chance de assistir o show.

Mais tarde, no hotel, integrantes da equipe da banda me contaram que Steve já estava com receio de realizar o show, já que mais cedo parte do teto havia cedido e caiu na área do backstage. Talvez isso explique porque a abertura dos portões de acesso foi adiada até o último momento. Quando a grade cedeu, realmente não havia como continuar.

Isso estragou meus planos. Sou avesso a confusões e multidão. Vou porque amo Iron Maiden, mas geralmente sacrifico uma ou duas músicas do bis, saio do local apressadamente, tomo o primeiro taxi que aparecer, e volto para o hotel, antes que a muvuca da saída do show seja estabelecida. Porém, naquele dia, não teve como fazer isso. Com o término antecipado, praticamente não haviam taxis disponíveis. Os ônibus e vans estavam absolutamente lotados. Era uma época sem 99, Uber, Cabify...

De repente, me vi sozinho em uma cidade onde não conheço muita coisa (na região do HSBC Arena, então, não conheço nada) e tudo o que ouço dizer tem a ver com tráfico, arrastão, sequestro, homicídio, falsa blitz, tiroteio e por aí vai. É uma cidade bacana sim, tenho grandes amigos por lá, mas é fato que é repleta de problemas sociais. Em São Paulo eu me garanto, mas no Rio sou “estranho em uma terra estranha”. O tempo passava e houve momentos em que achei que passaria a noite inteira lá. Nenhum sinal de táxi, e os ônibus todos lotados. Algum tempo depois, passou uma van, que se propôs a me deixar no Barra Shopping, onde certamente eu pegaria um táxi. E foi o que aconteceu.

Já no hotel, encontrei Adrian Smith saindo do elevador. Apenas o cumprimentei, tomei o mesmo elevador, e segui para meu quarto, afinal estava "desarmado", sem câmera ou material para autografar. Desanimado com o que aconteceu, desci para o bar, onde uma amiga estava me esperando. Mas o ânimo geral não era dos melhores. Steve e Dave passaram por lá, com cara de velório. Eu nem fiz menção de aborda-los. Saíram em direção à praia acompanhados dos dois seguranças oficiais da banda, Peter e Jeffrey. Mais tarde fiquei sabendo que visitaram uma das barracas da orla, provavelmente para comer alguma coisa.

Michael Kenney passou por mim. Eu o chamei e pedi que autografasse duas fotos que levei: uma que ele havia tirado comigo em Manaus, dois anos antes, e outra, um pôster de 20X30, que arrumei no Google Images, dele atrás de seus teclados. Com essa ele se impressionou: "Uau! É a segunda vez na minha carreira que alguém me traz essa foto. Essa eu autografarei com prazer!". Agradeci os autógrafos e pediria uma foto, mas ele foi chamado alguém da equipe, então deixei para outra oportunidade.


Foi então que Nicko, o único animado, chegou. Realmente animado, aliás. O bar estava vazio, com no máximo cinco fãs. Três deles o abordaram e ele atendeu de boa. Já que estava receptivo, eu e minha amiga levantamos para falar com ele também, mas ele pediu para ficar onde estávamos, pois pegaria outra cerveja e nos atenderia a seguir.

Continuamos sentados, eu de costas para ele, e o que aconteceu a seguir foi surreal até mesmo para mim. De repente, uma mão colocou uma cerveja em nossa mesa. Era Nicko, que perguntou se podia se sentar conosco. Mas é claro que sim! Não sei se me reconheceu da última turnê no Brasil, acho muito difícil, mas ele perguntou a quantos shows eu iria "desta vez", e eu respondi que estava acompanhando a parte brasileira da turnê, nos seis estados.

Comentei que lamentava não estar com a camiseta que comprei no FresH20, um site filantrópico que vende objetos autografados por celebridades, entre eles McBrain, para reverter o dinheiro em melhorias para países africanos. Nicko então se chateou. Disse que acreditou na honestidade do site, mas que a grana foi desviada, e que não chegou à Etiópia, como ele havia recomendado. Disse que estava muito desapontado. Respondi que se ele fizesse mais ações como essa, eu contribuiria novamente. Afinal, ele era meu herói há quase 30 anos e nada mais justo e honesto de minha parte do que ajudá-lo da maneira que puder. Ele sorriu e me convidou para tirarmos uma foto.


Não tenho o costume de sorrir na hora da foto, mas desta vez fui repreendido: "você precisa aprender a sorrir". Ainda assim fiz cara de mau, ou de bunda, se preferir, e a foto saiu incrível. Nicko abraçado comigo, com o sorriso mais verdadeiro que já vi na vida. A seguir, autografou o que eu havia trazido: uma foto dele comigo, tirada em 2009, uma foto dele, e o vinil americano "The Final Frontier". Então, pediu licença para buscar mais uma cerveja.


Como eu estava com o notebook, aproveitei para postar fotos do momento em meu perfil no Orkut. Nicko se aproximou e perguntou o que eu estava fazendo. Meio com receio dele não gostar por eu já estar postando a foto em uma rede social, expliquei o que era o Orkut, que é "igual ao Facebook", mas amplamente difundido no Brasil, e bla bla bla... Ele se interessou e mostrei algumas fotos minhas com outros músicos que ele conhece bem, tais como o Vinny Appice e Mike Portnoy. Ele, mais uma vez, disse que preciso sorrir nas fotos.

Eu disse que a única foto que tinha sorrindo, até então, era com Lauren Harris. Nicko fez uma cara de espanto e disparou: "xiiii, cara! O Steve vai te matar!". Em seguida Janick apareceu e Nicko se uniu a ele. Abraçados, cantaram músicas nórdicas, enquanto o crew da banda dava risada. Eu nem abordei o Gers, afinal já havia conseguido a foto e o autógrafo em São Paulo, e por mim estava bom demais. Grande dia, ainda mais se considerar que eu estava vindo de um show cancelado.

No dia seguinte resolvi me dar folga. Esse negócio de turnê é meio cansativo. Você dorme tarde e acorda cedo, sempre na expectativa de conseguir alguma coisa. Claro, se eu já tivesse "fechado a banda" estaria sossegado, mas é difícil sossegar quando só se tem fotos com dois integrantes. Passei o dia no quarto e dormi boa parte dele, especialmente de tarde.

Acordei por volta das 20:00 hs e tive que tomar uma decisão difícil: ir ou não ir ao show. No dia anterior deu tanta coisa errada (fila, atraso, assaltos, cancela-mento, teto caindo) então eu estava receoso que tudo desse errado novamente. Não queria de jeito nenhum correr o risco de passar por aquilo novamente. É como entrar em um ônibus com uma nota de 100 reais - você não conseguirá pagar a passagem, mesmo tendo dinheiro. De que adiantava eu poder pagar o taxi, se não havia taxi para me trazer?! No fim, com muito pesar, abri mão do show do Rio de Janeiro, e fui ao bar para aguardar o retorno da banda.

Naquela noite, somente o Nicko apareceu. Quando me cumprimentou, aproveitei para pedir autógrafo no DVD Rythms of the Beast, uma vídeo-aula de bateria que ele havia relançado há pouco tempo. A partir de então, acontecesse o que acontecesse, eu não incomodaria mais o Nicko, como também não incomodaria o Gers. Faltavam os outros quatro. Para finalizar a noite, saí do hotel para fumar um cigarro, e deixei dois amigos tomando conta das minhas coisas. Quando voltei, estava tudo autografado pelo Janick, que havia passado lá, e autografou tudo sem que eles ao menos pedissem - inclusive o plástico do Rythms of the Beast onde ele, obviamente, não tocou. Não entendi nada, mas beleza...


Após o café, Michael Kenney foi abordado por uma galera, e vi ali minha chance de conseguir a foto que não conseguira dois dias antes. Mas, infelizmente, ele piscou, e não ficou tão boa. Fazer o que?! Acontece... Ainda acompanhei a saída da equipe, antes de fazer o check-out. Chamei um táxi que me levou ao aeroporto, a caminho de Brasília.



sexta-feira, 25 de março de 2011

Iron Maiden - São Paulo

Enfim, o Iron Maiden retornou ao Brasil, desta vez com shows em seis cidades. Meses antes, Ricardo Pacheco enviou-me um e-mail revelando quais seriam os hotéis de todas as cidades e também os vôos que ele reservou, o que me possibilitou reserva-los também. Por dois anos usei apenas o salário para sobreviver, pagar as contas e me divertir. Todo dinheiro extra, como o décimo terceiro ou os 30% adicionais das férias, foi depositado em uma conta poupança, criada para custear os shows, hotéis e passagens, que eu sabia que não seriam baratos. Também acumulei horas extras para reforçar o banco de horas, de forma que eu pudesse me afastar do serviço pelo tempo que fosse necessário. Nesse período, Sheila decidiu ir para os Estados Unidos nas férias, mas não a acompanhei porque era isso ou o Maiden. 

A ideia era ir em todas as cidades no Brasil + Buenos Aires + Santiago. No entanto, eu não tinha tanto dinheiro, então tive que optar entre São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Buenos Aires e Santiago, abrindo mão de Brasília, Belém e Recife, ou ir em todas as cidades nacionais, e esquecer as gringas. Já que os shows eram os mesmos, o critério foi o número de cidades, já que assistiria um show a mais se ficasse restrito ao Brasil.

O planejamento foi longo e detalhado, já que incluía diversas cidades, ingressos, hotéis e vôos – mas ainda assim houve erros, que serão comentados no decorrer deste relato. O custo inicial “da brincadeira” foi cerca de R$6.328,78, assim dividido: R$1052,18 (ingressos), R$4.276,60 (hotéis), e cerca de R$1.000,00 (passagens). Houve vôos que considerei caros, como o de Brasília para Belém, que custou R$335,64, enquanto outros foram extremamente baratos. O voo de Recife para Curitiba custou apenas R$19,62, pois usei milhas e paguei apenas a taxa de embarque. Infelizmente não mantive registros com o custo exato de cada voo mas lembro que o último, de Curitiba para São Paulo, pela Webjet, custou R$32,00. Quanto aos ingressos, optei sempre por comprar os mais baratos, o que significa que assisti a todos os shows de lugares ruins – para ver a banda de perto, eu veria nos hotéis. Há, é claro, outros custos, como transporte local e alimentação, mas esses não faziam parte dos custos pré-turnê.

Eu e Ricardo não éramos os únicos a seguir a banda regularmente. Vários amigos faziam isso, e muitos continuam a fazer até hoje. Em um e-mail, Ricardo mandou a “lista atualizada”. Um dos que receberam a mensagem respondeu: “Pacheco, você vai levar essa lista em todos os shows e fazer a chamada?”. De qualquer forma, a lista está incompleta, faltam nomes como Julio, Arthur e Eric.


Ingressos


Hotéis


Vôos


Retornando ao que interessa, assim que chegamos ao Hilton, eu e Sheila percebemos a aproximação da van do Cavalera Conspiracy, e aproveitamos para tirar uma foto com o Max, que era o único ocupante do veículo. Sempre ouvi falar que ele se recusa a assinar álbuns do Sepultura, mas Kevin insistiu um pouco e ele acabou assinando. Na ocasião eu não estava com nada pra ele que ele assinasse.

Max Cavalera
Quando entrei no hotel, já pressenti a desgraça, pois havia muito mais fãs hospedados do que fora do hotel. Pior ainda, a maioria que se hospedou o fez com dois hóspedes e um convidado – na prática, dividem a conta em três, para ficar barato para todos. Se fosse um quarto fazendo isso, não haveria problemas, mas eram dezenas.

Fomos ao andar exclusivo (aquele em que a banda toma café da manhã e faz cofee-break, lembra?), que estava tomado por fãs. Quando Bruce apareceu, até tentou atender, mas eram muitos e definitivamente não sabiam se comportar, então assinou alguns itens aleatórios, mas logo desistiu e foi embora.

De noite foi ainda pior. O Canvas (bar do primeiro andar) estava tomado pelas mesmas dezenas de fãs. A porta do elevador se abriu e então surgiu Steve Harris. Um fã exibiu a caneta de autógrafo, deixando bem clara sua intenção. Steve teve a infeliz idéia de sinalizar que o atenderia. Foi o que bastou para que fosse imediatamente cercado, em todas as direções, por cerca de 80 fãs. Ele atendeu a todos. Mas de boa? Fiquei com pena dele! Os infelizes nem ao menos se organizaram ou formaram uma fila para que tudo acontecesse de maneira calma e civilizada. Steve é um cara bacana, já o vi atender todo mundo diversas vezes - mas ali estava ele cercado por um monte de gente, cada um querendo ser o próximo a ser atendido a qualquer custo. Quando atendia o da direita, o da esquerda o cutucava - e vice-versa. Fiquei com vergonha alheia total e nem cheguei perto. Lógico que queria mais uma foto com ele, mas não assim.

No dia seguinte, fui tomar café e, estranhamente, não havia outros fãs no andar exclusivo. Por outro lado, Janick Gers estava lá. Peguei o celular e liguei para Sheila, com uma mensagem curta e grossa: "sobe aqui agora". Também mandei uma mensagem para uma amiga que estava hospedada, Mariana, que anos antes havia me pedido para ajuda-la a conhecer o Gers, pois ele é "o amor de sua vida". Disse apenas "Janick está no bar. Não avisa ninguém e vem".

Hospedada com duas amigas, eu sabia que viriam as três, mas cinco pessoas não são suficientes para assusta-lo. Ela chegou tremendo muito - assim como eu tremi quando vi Steve pela primeira vez. Desabou no choro também. Eu disse "enxuga as lágrimas e vamos trabalhar". Janick havia finalizado a refeição e agora estava sentado no parapeito da janela, tirando fotos da vista com seu iPhone.

Mariana estava louca para aborda-lo, mas eu a segurei: "o cara sabe que estamos aqui, sabe o que queremos. Se ele quiser, nos atenderá". Eu havia revelado a foto que tirei com ele em 2008, então a peguei e simplesmente deixei em cima da mesa. Janick se levantou, desta vez falando ao celular e passou por nós. Olhou para a foto e deu uma risadinha.

Mais uma vez, Mariana quis aborda-lo, e mais uma vez eu impedi: "Porra, se liga, o cara está no celular, deixe-o conversar em paz". E ela toda tensa: "Mas e se ele for embora?". "Significa que ele não quer nos atender, oras. É direito dele! Não é porque estamos aqui que ele tem obrigação de tirar uma foto com a gente".

Mais de meia hora se passou e ele ali, conversando. Mariana não tirava os olhos, mas eu nem prestava mais atenção. De repente, uma mão pegou minha caneta e começou a autografar tudo. Aconteceu tudo exatamente da forma que eu disse. Ele percebeu que respeitamos o seu momento ao celular e enquanto tirava fotos na janela, e simplesmente veio nos atender. Simples. Todos conseguimos fotos e autógrafos sem nem ao menos aborda-lo. Sensacional! Depois eu soube que Janick saiu do hotel, atendeu os fãs, e caminhou até um bar nas proximidades. Me chamaram para ir lá, mas eu não iria incomoda-lo novamente.


Quando estava anoitecendo, Sheila e eu estávamos no andar exclusivo, quando Bruce apareceu e sentou-se em uma mesa mais escondida, para comer alguma coisa. Decidimos esperar que finalizasse a refeição para aborda-lo. Foi então que tudo deu errado: Jonas e o Mestre, que também estavam hospedados, apareceram, e perceberam o que estava acontecendo.

Um outro fã aleatório, ainda pior que eles, também apareceu e, quando viu que Bruce estava ali, ficou de pé próximo à mesa do vocalista, sinalizando todo o tempo, indicando querer um autógrafo. Mau humorado, e com razão, Bruce também sinalizava e chegou a adverti-lo verbalmente, deixando bem claro que não o atenderia.

Ele, entretanto, insistia em ficar cercando o cara. "Falamos um monte", pedindo para que se comportasse, explicando que essa atitude iria atrapalhar a todos, mas ele estava irredutível em sua missão de ser o chato do dia – nem Kevin conseguiria ser pior. Disse que teria que conseguir rápido, já que combinou buscar sua tia para leva-la ao show (porra, ou você quer levar sua tia, ou você quer autógrafo do Bruce. Ou um ou outro, cacete!).

Até que chegou um momento em que ele foi até a mesa do Bruce, que reagiu de forma muito irritada, mas "autografou" o "Seventh Son of a Seventh Son". Na verdade, foi um rabisco, e muito do mal feito. O pentelho saiu comemorando. Bruce, por sua vez, levantou-se para sair de lá. Já estava perdido, mas o que é ruim sempre pode piorar: Jonas correu até ele e o Mestre o seguiu, mas levando chocolate nas mãos, para oferecer ao vocalista. A essa altura, um segurança havia chegado e ficou indignado:

- O que é isso?! Você acha que está em um zoológico oferecendo comida aos bichos?

Ele, então, retirou Bruce do local que, é claro, saiu sem atender ninguém. 

Fomos ao show, voltamos e fomos ao Canvas. Kevin, é claro, tinha uma ideia chata em mente. Disse que se hospedou em 2009 e que, em todas as noites, Bruce escolheu uma poltrona em um canto específico do bar para se sentar. Continuou dizendo que se sentaria ali e que, se Bruce quisesse o lugar, teria que atendê-lo. Quando Bruce apareceu, ele olhou para Kevin, sentado em “sua poltrona” e fez um comentário com algum integrante da equipe. Por um longo tempo, ele olhava, cada vez mais irritado, e comentava mais alguma coisa. Por fim desistiu, e subiu sem atender ninguém. Consegui fotos com Marc Rizzo e Johny Chow, do Cavalera Conspiracy, mas nem sinal do Igor Cavalera.

Marc Rizzo, guitarrista do Cavalera Conspiracy
Johny Chow, baixista do Cavalera Conspiracy
De manhã, Sheila tomou o elevador que subia, rumo ao café da manhã. Eu chamei o que descia, pois queria fumar um cigarro antes de comer. Quando o elevador chegou, surpresa: dentro, apenas Bruce Dickinson, mais ninguém. Quando me viu entrar, cabeludo e com camisa do Iron Maiden, ele provavelmente se assustou. Mas assim como fui ignorado na noite anterior, eu também não dei a mínima para a presença dele. Dei-lhe as costas, apertei o térreo, e descemos alguns andares juntos. Fumei, subi e tomei café. 

Pouco antes de fazer o check-out, Kevin me disse que Jonas aprontou novamente. No mesmo andar de Nicko McBrain, ele descobriu qual era o quarto do baterista. Próximo ao elevador, havia um puff. Jonas o levou até a porta do quarto de Nicko, sentou e ficou esperando  pela saída dele. Seu plano imbecil, entretanto, foi frustrado por Peter Lokrantz (o segurança com cara de vicking, lembra?), que chegou para buscar Nicko. Ele expulsou Jonas aos berros.

Tomei um táxi para Congonhas – sozinho, já que a Sheila não estava de férias e não poderia me acompanhar na maioria das cidades.

Aquela foi a última vez do Iron Maiden no Hilton em São Paulo, e compreendo bem o porquê. O que vi durante esses dias não foi coisa de fãs, mas de mimadinhos sem a menor compreensão do que seja civilidade. Antes de qualquer foto ou autógrafo, vem o respeito por esses senhores que há décadas espalham o melhor do metal por todo o planeta.